sexta-feira, janeiro 13, 2006

TI percorreu longo caminho até a governança de hoje

Tornou-se imprescindível a adoção dos conceitos de governança corporativa e governança de TI. Mais do que práticas desejáveis, são um fator condicionante para o crescimento das empresas.

Patrícia de Aquino Mendes

Já completei 28 anos envolvida com TI, 27 deles profissionalmente.

O avanço tecnológico que houve neste período é indiscutível. Quantos profissionais como eu, diante da velocidade das inovações nesta área , não se angustiam com a sensação de estar sempre “devendo” em termos de conhecimento. Será possível algum dia ter domínio da tecnologia?

O mais interessante nesta trajetória é observar a mudança que houve em termos do perfil do profissional que atua nesta área e no conceito do que é considerado valor na utilização da TI.

Entrei para a faculdade sem saber exatamente o que era o processamento de dados, seguindo o conselho de meu pai segundo o qual esse “negócio” dava muito dinheiro. Ele tinha razão quanto a isso. Em 1977, nem tinha completado a faculdade, já tinha um emprego como programadora Cobol, ganhando “os tubos” segundo um amigo advogado cujo salário hoje é três vezes maior que o meu.

Existia uma carência de conhecimento e de profissionais no mercado bastante confortável e conveniente para quem trabalhava na área. Muita gente não entendia direito qual era a mágica que fazia um computador gerar estatísticas, relatórios e formulários que permitiam que tarefas que antes duravam horas fossem completadas em minutos.

Esse tipo de coisa dava a nós, profissionais de TI, muito orgulho e com razão. Mas trazia também uma certa arrogância. Afinal, era um conhecimento não muito difundido que exigia um potencial diferenciado, raciocínio lógico apurado, muita pesquisa e dedicação. Enfim, TI era um assunto que não dava para discutir com “qualquer um”.

O primeiro susto, levei quando em 1995 fui trabalhar num banco. O sistema de contabilidade estava totalmente apoiado num programa que ninguém sabia exatamente como trabalhava. Como em time que está ganhando ninguém mexe (principalmente se o “time” é uma peça importante no negócio da instituição) um determinado analista, que era quem dominava o código, ia acrescentando umas linhas de programação aqui e ali e assim eram agregadas novas funcionalidades à contabilidade e corrigidos eventuais “bugs”.

Afinal performance e rapidez naquela época não estavam entre as nossas preocupações. O importante era a contabilidade fechar no final do mês e emitir os relatórios corretos. Fui contratada especificamente para entender e documentar o programa, aparentemente uma tarefa pouco nobre com a qual um analista experiente não podia “perder tempo”. Como resultado do trabalho e em função do compartilhamento da documentação, outros profissionais passaram a atuar no sistema, minorando o tempo despendido no trabalho de manutenção. O código foi racionalizado e gerou economia de algumas horas de processamento; de quebra acabei entendendo mais da contabilidade do banco do que muitos dos analistas que já estavam lá há alguns anos. Guardei a lição: documentar é importante e partilhar conhecimento traz eficiência.

Fui mudando de emprego (era muito fácil !!) até que em 1987 me deparei com uma nova realidade.

O meu trabalho que até então, tinha sempre tido como alvo a própria organização precisava agora resultar em benefícios para o cliente externo. O cliente não entendia muito de sistemas operacionais, técnicas de programação ou fluxogramas. Mas o fato é que era ele quem pagava meu salário e queria resultados rápidos, informações online e confiáveis.

Percebi que para produzir algo que ele realmente gostasse era necessário entender o que ele queria. Existia um abismo na nossa comunicação. Outra lição aprendida: a mais moderna tecnologia e o mais especializado conhecimento não são nada quando a necessidade do cliente não é entendida.

Desde então, vi com apreensão durante muito tempo alagar-se a distância entre a TI e os clientes internos ou externos da organização.

Avançava o desenvolvimento tecnológico e com isso cresciam também os especialistas, profissionais de perfil altamente valorizado. O melhor sistema era o que utilizava a mais moderna tecnologia cujo custo era pouco questionado. Algumas vezes confesso que me senti constrangida com os olhares desconfiados de alguns colegas quando, por força das lições aprendidas, diante da urgência de se adotar a última novidade tecnológica do mercado, eu perguntava “para quê?”.

Agora, no entanto, vivemos um momento completamente diverso e com o qual finalmente me identifico. Por força de pressões externas tornou-se imprescindível a adoção dos conceitos de governança corporativa e consequentemente de governança em TI.

Apesar de tais pressões terem sido endereçadas inicialmente para instituições de cunho financeiro, a maioria das organizações já entende a adoção de práticas de governança não mais como ações desejáveis e sim como um fator condicionante para o crescimento empresarial.

Tais práticas salientam a necessidade de transparência, a disponibilidade e qualidade da informação, o controle de custos e a valorização de clientes e acionistas.

Importa hoje o alinhamento da TI com os negócios da organização. Importa o perfil do profissional que atua na área, que deve ser mais flexível, hábil na comunicação e sensível às necessidades do usuário. Importa sim usar a melhor tecnologia, desde que seu custo possa ser justificado e comprovado seu benefício para o cliente.

O mercado hoje nos brinda com uma variedade de padrões e frameworks que podem nos auxiliar no alcance das metas propostas pela boa governança. Cobit (Control Objectives for Information and Related Technology) e ITIL (Information Technology Infrastructure Libray), somente para citar alguns, são modelos amplamente difundidos, que quando utilizados em conjunto ajudam a responder não somente o “para quê” é necessário utilizar a TI, mas também a justificar o seu custo e comprovar o que afinal já sabemos de longa data: que o uso eficiente da tecnologia agrega valor e pode, num mercado tão competitivo como o atual, representar o diferencial necessário para a sobrevivência de uma organização. [Webinsider]


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